Sextou com os amigos do Palácio
Cada eleitor e cada eleitora tem o direito de montar a própria chapa, como se monta o prato num almoço de família no domingo. A mesa é comum, nas travessas as mais diferentes comidas, cada um se serve como quer, e ninguém precisa dar satisfação da combinação que fez. É domingo! Ninguém discute isso. O que se discute é outra coisa, e há quem tenha todo o interesse em confundir as duas. Como já alertou Chico César, em “Deus Me Proteja”, sobre a maldade de gente boa.
Porque quem põe a mesa também tem direitos, e, mais incômodo ainda, tem deveres. O dever ético e estratégico de dizer o que trouxe, com que receita e para quem. O PT cumpriu o seu. Definiu Lula para a Presidência e Felipe Camarão para o governo do Maranhão. Está escrito no programa, aprovado nas instâncias, publicado. Não é receita de família guardada em gaveta, é cardápio afixado na porta, e nele se lê Lula com Camarão!
Mesmo assim, a candidatura de Felipe Camarão vem sendo alvo de uma campanha permanente para desacreditá-lo como candidato do partido e de Lula, como se o PT tivesse chegado ao almoço de mãos vazias e Lula, coitado, estivesse sem lugar à mesa no Maranhão. O mais curioso é que essa campanha conta com a dedicação de militantes e dirigentes do PT e do PCdoB que ocupam, ou ocuparam, cargos estratégicos na gestão de Carlos Brandão. Gente que descobriu, com a convicção de quem já participou do banquete do Palácio, que a campanha de Lula é “maior e mais ampla que a campanha do PT”. É verdade. Só não é tão ampla que caiba nela o candidato que o próprio partido escolheu para disputar o Governo do Maranhão. Amplitude, nesse caso, é a palavra bonita para dizer que a mesa foi posta em outra casa.
A decisão do juiz eleitoral, portanto, não atinge o direito de ninguém decidir em quem votar. Ninguém foi monitorado por se servir de duas travessas, e nenhuma desavença de domingo foi parar no cartório. O que foi atingido é um convite impresso com o nome de um anfitrião que não foi consultado. Lula aparece ali de braço dado com uma candidatura que ele não apoia, numa peça produzida por militantes de esquerda devidamente alinhados ao Palácio dos Orleans. Chamar isso de “judicializar eleitor” é uma tirada engenhosa. Tão engenhosa quanto chamar de censura a devolução de um convite de casamento em que o noivo descobre, pelo cartório, que vai casar.
Lula não é propriedade do PT, disseram. Concordo, e vou além. Lula é patrimônio do povo brasileiro, no mesmo sentido em que o Bumba meu boi é patrimônio do Maranhão. Não tem dono, tem brincantes. Não se herda, se aprende no terreiro. E ninguém, por mais que tenha decorado a toada, pode botar o couro de um sotaque no boi de outro e sair pela cidade dizendo que aquela brincadeira é sua. É hoje o único nome na disputa em condições de derrotar o fascismo. Mas não vamos derrotá-lo com fotomontagem. Vamos derrotá-lo com um programa de governo que enfrente as injustiças econômicas e simbólicas deste país, e com a posição política de quem define o seu lado e o seu lugar na disputa. Quem quiser sentar à mesa, o endereço é conhecido. O anfitrião também.
Artigo do Militante histórico do PT, Prof. Xico Gonçalves
