A Universidade Federal do Maranhão (UFMA) enfrenta um clima de tensão e insegurança após a eclosão de múltiplas denúncias de assédio moral e sexual, que permanecem sem solução efetiva por parte da administração central. Vítimas relatam um padrão de inércia, apontando que a reitoria se omite diante dos casos, deixando os acusados em suas funções, o que perpetua um ambiente de trabalho hostil e adoecedor. Em um documento detalhado obtido pela reportagem, o professor Cairo Cézar Braga de Sousa, do Departamento de Turismo e Hotelaria, registra formalmente na esfera administrativa da UFMA o assédio moral que sofre desde 2018 por parte do colega docente Davi Alysson Cruz Andrade, descrevendo uma trajetória de humilhações que comprometeram sua saúde física e mental a ponto de resultar em afastamento do trabalho.
O relato de Cairo expõe uma escalada de agressões que começaram com comunicação violenta e comportamentos debochados em reuniões de colegiado e departamento, evoluindo para sabotagens institucionais. Segundo o documento, o professor Davi Andrade pediu para ser parecerista de um projeto de criação de núcleo de pesquisas submetido por Cairo, apenas para emitir parecer desfavorável , posição posteriormente revertida quando outro professor avaliou a mesma proposta. Em outro episódio, Cairo foi constrangido a se retirar de uma banca de monografia no dia da defesa, após o colega exigir participar de forma autoritária e deselegante, diante da aluna e convidados. Em 4 de março de 2020, o ápice ocorreu quando Davi Andrade afirmou publicamente, em assembleia com presença de alunos, que um seletivo para professor substituto conduzido por Cairo seria “ilegal e viciado”, colocação mantida mesmo após o coordenador demonstrar que todos os trâmites haviam sido respeitados.
O impacto psicológico foi devastador. O professor relata que desenvolveu ansiedade generalizada, insônia, pesadelos, taquicardia, falta de ar e voz trêmula antes das reuniões com a presença do assediador. Em agosto de 2020, foi afastado por 60 dias por recomendação psiquiátrica, seguido de mais 45 dias de licença para tratamento de saúde. Laudos médicos atestam preocupação excessiva, perda de prazer no trabalho, medo de rejeição, nervosismo elevado, perda de autoestima e pensamentos recorrentes de exoneração , um quadro que os especialistas associam ao estresse pós-traumático e à depressão. O docente chegou a buscar apoio no setor de Qualidade de Vida da PROGEP em duas ocasiões, mas as tentativas de diálogo com o agressor, mediadas pela instituição, não resultaram em mudanças efetivas de comportamento.
O caso de Cairo não parece ser isolado. Ele próprio registra em sua denúncia a “necessidade de investigar ações que aconteçam com outros colegas que passaram e passam por situações similares nesse mesmo Departamento”. Testemunhas elencadas no documento ,incluindo professores, técnico administrativo e alunos do centro acadêmico presenciaram episódios de comunicação violenta, perseguição e constrangimentos públicos. O professor ressalta que a conduta do colega viola deveres previstos na Lei nº 8.112/90, como manter conduta compatível com a moralidade administrativa, tratar as pessoas com urbanidade e não promover manifestações de apreço ou desapreço. Apesar dos registros em atas e relatos, a UFMA ainda não adotou medidas de afastamento do servidor acusado.
Em sua petição, Cairo invoca os direitos constitucionais à saúde, à dignidade humana e à honra, citando a ministra do TST Maria Cristina Irigoyen Peduzzi, que reconhece o assédio moral como violação aos artigos 1º, inciso III, 5º, inciso X, e 6º da Constituição Federal. O professor afirma que jamais cogitaria cometer uma ilegalidade ou submeter um processo viciado, e que as acusações públicas de Davi Andrade atingem diretamente sua honra e o nome construído em 15 anos de carreira. “Tenho certeza absoluta que a Universidade não corrobora com essas práticas”, escreve, ao mesmo tempo em que pede intervenção institucional urgente para que o quadro não piore e para que outros colegas não passem pelo que ele descreve como uma experiência que o afastou não apenas do trabalho, mas da própria identidade docente.
A reportagem apurou que a blindagem a supostos assediadores por parte da administração do reitor Fernando Carvalho não é um fenômeno isolado, mas parte de um padrão de gestão criticado por entidades como a APRUMA e veículos da imprensa local. Denúncias apontam que a reitoria centralizou Funções Gratificadas (FGs) ,antes vinculadas aos departamentos,sob controle direto da administração superior, transformando a distribuição de cargos e benefícios em instrumento de barganha política e lealdade. Além disso, há relatos de que Processos Administrativos Disciplinares (PADs) são utilizados como ferramenta de intimidação a vozes dissonantes, criando um clima de medo que inibe denúncias e críticas. O caso do professor Luciano Façanha, ex-diretor do Centro de Ciências Humanas (CCH), é frequentemente citado como exemplo: desde que concorreu contra Fernando Carvalho em eleições internas, seu centro teria sido alvo de abandono e precarização, com manutenções básicas suspensas. A permanência do pró-reitor Danilo Lopes na PROAES, mesmo após denúncias de irregularidades na gestão de bolsas e de uso de PADs para intimidar estudantes, é apontada como evidência da proteção a aliados próximos em troca de apoio político. A própria posse de Fernando Carvalho ocorreu em um processo eleitoral marcado por denúncias de irregularidades, o que teria minado sua legitimidade democrática e aprofundado práticas consideradas autoritárias , veja o pedido de investigação Anexo 23 Despacho decisorio REITORIA
Esse professor já fez outras supostas vítimas que falaremos em outras matérias …
