Viagens, safári e imóveis: investigação identificou ao menos cinco viagens internacionais entre o senador e o advogado Willer Tomaz, apontado como “hub financeiro” do esquema de fraudes no INSS; vínculo também alcança o senador Weverton Rocha e Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master
A relação entre o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o advogado Willer Tomaz, investigado pela Polícia Federal sob suspeita de envolvimento no escândalo de fraudes no INSS, tornou-se um dos principais focos de desgaste na pré-campanha presidencial do parlamentar. Viagens internacionais conjuntas, o uso de imóveis compartilhados e parcerias profissionais compõem um vínculo que entrou na mira dos investigadores e já é explorado por adversários políticos. As informações foram reveladas em reportagem do jornal O Globo, veja :

Em março de 2025, nove meses antes de se lançar à corrida presidencial, Flávio embarcou com familiares e amigos para uma viagem de uma semana à África do Sul, com roteiro que incluiu um safári. Entre os acompanhantes estava Willer Tomaz, com quem o senador estreitou relações nos últimos anos. A PF identificou ao menos cinco viagens internacionais feitas em conjunto no primeiro semestre do ano passado, incluindo visitas a Portugal, França e Estados Unidos, após vasculhar o celular e a caixa de e-mails do advogado, onde encontrou fotografias, reservas e registros de voos e aluguel de veículos. Em uma das imagens apreendidas, Flávio, Willer e o senador Weverton Rocha (PDT-MA), também alvo de investigações no escândalo do INSS, aparecem com camisetas iguais estampadas com animais africanos e a inscrição “Big Five”.
No mês passado, Willer cedeu um apartamento na Vila Nova Conceição, zona sul de São Paulo, para que Flávio utilizasse durante a campanha. A utilização do imóvel foi alvo de questionamento de adversários do senador no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), sob o argumento de que deveria ter sido declarado como doação à campanha. O apartamento também se tornou fonte de desgaste por estar vinculado a Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master preso sob suspeita de comandar a maior fraude ao sistema financeiro do país. Segundo a revista Piauí, antes de ser adquirido por Willer, o imóvel pertencia a Fabiano Zettel, cunhado e apontado pela PF como principal operador do banqueiro. Questionado, Willer afirma que “jamais manteve” relação pessoal, comercial ou societária com Zettel ou Vorcaro. O senador não se manifestou sobre o uso do apartamento.
A conexão entre os dois vai além das viagens e do imóvel. Flávio e Willer também compartilharam um jatinho particular pertencente à Prime You, empresa de aviação executiva que teve entre seus sócios Daniel Vorcaro, então dono do Banco Master. Em janeiro de 2025, na véspera da posse de Donald Trump, o senador, sua mulher e as duas filhas embarcaram em um voo de Fort Lauderdale, na Flórida, com destino a Brasília, ao lado de Willer e integrantes da família do advogado. Willer afirmou que contratou os serviços da empresa como cliente e que desconhecia a participação do banqueiro na sociedade. Além da amizade, os dois mantêm atividade profissional em conjunto: em um processo no Superior Tribunal de Justiça (STJ), representam um dos sócios de uma indústria do Rio Grande do Norte em disputa que envolve a execução de R$ 159 milhões.
Tanto Weverton como Willer entraram na mira da PF em meio às investigações do escândalo do INSS. O advogado foi alvo de uma operação no mês passado, sob suspeita de manter uma estrutura de apoio formada por empresas e operadores financeiros para lavar ou ocultar recursos obtidos por meio de desvios ilegais de aposentadorias. De acordo com relatório da PF que embasou buscas e apreensões em seu escritório, em Brasília, Willer atuava como “hub financeiro, patrimonial e logístico” de envolvidos no suposto esquema. A investigação aponta que o advogado tinha como função dar sustentação ao grupo por meio de “empresas, imóveis, aeronaves, pilotos, funcionários, operadores financeiros e interlocutores políticos”. Um dos elementos citados na representação policial é o repasse de R$ 11 milhões de empresas relacionadas a Willer para a mulher de Weverton. O senador também foi alvo de uma operação da PF em dezembro, quando os investigadores afirmaram que ele atuava como “liderança e sustentáculo das atividades empresariais e financeiras” do grupo que fraudou o INSS.
Procurado, Flávio disse manter “relação de amizade” com Willer “legítima” e que “qualquer tentativa de insinuar irregularidade a partir dessa afinidade pessoal é mera ilação, sem qualquer fundamento nos fatos”. O senador não informou se teve despesas pagas pelo advogado. Em nota, Willer afirmou que as viagens “são de caráter estritamente privado”, “decorrem de uma relação de amizade pessoal de longa data com o senador Flávio Bolsonaro e sua família” e “foram custeadas com recursos próprios e nada têm a ver com função pública, com contratos ou com qualquer interesse de terceiros”. Weverton também disse manter relação de proximidade com Willer e não respondeu quando questionado sobre quem pagou sua viagem à África do Sul. “Willer Tomaz é meu compadre e amigo há muitos anos e já fizemos várias viagens juntos em família. São relações privadas, que não envolvem dinheiro ou interesses públicos”, declarou, veja a reportagem feita pelo O GLOBO AQUI
