A relação entre a mineradora Vale e a China, seu principal mercado consumidor, é antiga e marcada por interesses bilionários. Ao longo dos anos, essa parceria estratégica foi se estreitando, mas também acumulou episódios controversos que levantam questionamentos sobre quem, de fato, sai ganhando nas negociatas envolvendo exportações de minério de ferro e a venda dos megagraneleiros conhecidos como Valemax.
No centro da celeuma está a decisão da Vale de se desfazer de parte significativa de sua frota de navios Valemax, embarcações com capacidade para transportar até 400 mil toneladas de minério. A estratégia oficial da empresa foi apresentada como uma forma de focar no core business, reforçar o caixa e reduzir custos operacionais. Para isso, a mineradora vendeu os navios a empresas de leasing chinesas, como a China Merchants Energy Shipping (CMES) e a China Ocean Shipping Company (Cosco), firmando contratos de afretamento de longo prazo, alguns com duração de até 25 anos.
Na prática, a operação transformou ativos próprios em contratos de aluguel, garantindo à Vale o transporte contínuo de seu minério até os portos chineses. Porém, ao transferir a propriedade dos navios para grupos ligados ao Estado chinês, a empresa brasileira também abriu mão do controle logístico de uma etapa crucial da cadeia de exportação, fortalecendo ainda mais a posição estratégica da China no fluxo global de minério de ferro.
O episódio ganha contornos ainda mais polêmicos quando se relembra que, anos antes, autoridades portuárias chinesas e grandes operadores do país teriam imposto restrições à entrada dos navios Valemax. À época, os argumentos variavam entre supostos riscos ambientais, poluição e alegações de falhas de manutenção. O veto, na prática, inviabilizou o uso pleno dessas embarcações, concebidas justamente para reduzir custos no transporte de longas distâncias entre o Brasil e a Ásia.
Curiosamente, após esse período de resistência, empresas chinesas passaram a adquirir os próprios navios que antes eram barrados nos portos do país. Com a mudança de propriedade, as restrições desapareceram, e os Valemax passaram a operar normalmente na China. O movimento alimenta suspeitas de que o boicote anterior teria servido para pressionar a Vale a vender os ativos em condições desfavoráveis, apenas para garantir a continuidade das exportações de minério ao seu maior cliente.
Especialistas e fontes próximas às negociações afirmam que alguns desses navios podem ter sido vendidos muito abaixo do valor de mercado, o que reforça a percepção de que a China saiu duplamente vencedora: garantiu transporte eficiente e barato para o minério que consome e ampliou sua influência sobre uma das maiores mineradoras do mundo. Enquanto isso, a Vale segue refém da necessidade de manter o fluxo de exportações, mesmo que isso signifique se submeter aos caprichos do seu maior comprador.
